Date:Seg Nov 26, 2001 3:25 pm Texto:86 Assunto: Re: [ventania] O presente Surpresa da Águia Mensagem:1405
Aloha lista
Aloha Annallu Interessante teus questionamentos;
” O presente da águia “ foi o primeiro livro do Castañeda que eu li. Tive em mãos a “Erva do Diabo” anos antes, mas o achei muito chato da primeira vez que comecei a ler e deixei de lado. Anos depois caiu na minha mão o “Presente da ÁGuia”. Foi num fim de semana, o livro chegou no momento certo. Li vorazmente o livro, passei o fim de semana lendo, almoçava lendo, jantava lendo. O livro foi inquietante, mexeu bastante comigo, eu tinha passado por algumas experiências de lembrar de pessoas e eventos que para a mente linear “nunca aconteceram” , ler o livro me abriu uma nova gama de possibilidades, que ainda hoje não explorei de todo, mas ao menos devolveu uma tranquilidade a minha percepção que estava abalada com estas lembranças . AS reações que um livro provocam são muito interessantes, sabe-se lá a complexa teia de relações que ele desperta em ti para gerar estas reações que citas. No começo deste livro fica claro que CC não tem condições energéticas para lidar com o grupo de aprendizes do Nagual, nem o grupo tem o despreendimento e a ausência de egocentrismo para tal e assim eles se separam definitivamente. O decorrer do livro eu considero muito interessante, especialmente quando vão surgindo os outros personagens, o grupo do nagual, que dão uma dimensão a história muito interessante. A obra do nagual tem uma “intenção” muito forte, quem tem uma certa sensibilidade não consegue lê-la e ficar impassível, segundo a própria explicação do nagual é o “intento” dos feiticeiros antigos que além do tempo e do espaço nos atinge, nos alinhando de tal forma que mudanças ocorrem mesmo que não as desejemos. A obra de CC tem esse alinhamento com o Intento dos feiticeiros do passado, lê-la é ser instigado por este intento, é ser desafiado a entrar nesse fluxo e isto mexe muito com nossa percepção ordinária. Creio que depois de se alinhar ao intento do Guerreiro, depois de “intentarmos” trilhar esse caminho, realmente o destino se torna imutável, ou vivemos como guerreiros ou morremos. Morremos de ‘varias formas, ou morte física mesmo, ou morte interior, pois se não aceitamos nosso destino de guerreiros o que acaba acontecendo é uma morte em vida, uma vida de crises, nunca completamente realizada, um “quase” constante que não permite uma vida efetiva como deve ser. Conheço muitas pessoas que sofrem por isso, andaram metade do caminho, se identificaram com a proposta, o Intento dos ancestrais xamãs as envolveu, mas não dão o passo fundamental, não conseguem morrer para a antiga vida e começar uma completamente nova e assim, com um pé em cada canoa, vivem uma vida de crises e angústia. A proposta de viver como guerreiro , de fato,é um desafio constante. Somos egressos de uma cultura de “mais ou menos” onde tudo “se ajeita” e tudo se “fantasia” . Nesta sociedade as pessoas não vivem, sobrevivem. A proposta da vida de um guerreiro é visceral, é algo que não tem mais ou menos, É ou não é. Os conceitos do caminho me parecem os mais úteis. Cada ato praticado com uma mistura de “implacabilidade, astúcia, gentileza e paciência” . Agir assim energiza, fortalece, provoca um bem estar indízivel. É perfeito isso, toda vez que ajo desta forma tudo flui, quando insisto em agir com os eus imbecis que herdei dos condicionamentos da vida só surgem confusões, então me parece que não se trata de “crer” mas de praticar e a própria prática vai nos mostrando a efetividade das propostas. Para viver a proposta profunda dos guerreiros temos que nos apagar, sermos cada vez mais nada, irmos cada vez mais contra as propostas da sociedade dominante que te cobra: tens que ser ‘alguém’ , tens que aparecer, se destacar, se “realizar” enquanto o Caminho diz : seja poeira na estrada, seja nada, seja um barco vazio. O Xamanismo Tolteca é essencialmente prático e na nossa cultura que adora intelectualismos e nada de atitudes ele gera crises, sem dúvida. Aliás a obra de CC como um todo me parece uma obra prá se praticar, crença aqui não serve, quase tudo que está ali eu busco praticar por isso o xamanismo guerreiro me atrai, por prática, não uma atração intelectual. Eu dedico minha vida a proposta do Caminho, me parece muito sensato a idéia que tudo que realizarmos a morte vai anular, por isso considero que trilhar o caminho dos “desafiantes da morte” é de grande sensatez. Não tenho medo da morte, mas amo demais a vida, isto que me leva a trilhar o Caminho, um amor profundo pela vida, por estar vivo e consciente. Uma coisa que fortalece meu engajamento na ideologia do guerreiro é que todas essas propostas do Caminho Tolteca eu as conheci no Taoismo, o caminho Tolteca foi uma nova sintaxe para expressar o que já acreditava e vivia. Ler as obras do nagual foi rever, por outra sintaxe , o que havia aprendido no Taoismo, com as pessoas que me ensinaram. Mas a certeza do caminho não é apenas “intelectual” , é mais que isso. TEmos que ter energia para entender as propostas do caminho, senão ficamos só numa abordagem intelectual, como crentes, citando partes da “bíblia” mas sem a vivência efetiva que é o que tem valor. A teoria , o citar frases tem valor quase nenhum no caminho, o que vale é a prática, é incorporar na nossa vida, nos mínimos atos, os conceitos do CAMINHO. Homens e mulheres que tem filhos por exemplo, vão ter mais dificuldades de realmente “trilhar “ o caminho, porque tem um buraco em seus ovos luminosos, um buraco através do qual a energia escapa. Para seguir em frente tem que tapar esse buraco. O uso da energia sexual tem que ser muito bem trabalhado, do contrário não teremos energia para sonhar. As mulheres tem que tomar ainda mais cuidado, porque por configurações biológicas próprias, podem ser vampirizadas energeticamente pelos homens com os quais se relacionam. Isso são fatos energéticos do Caminho, ou trabalhamos claramente com eles ou vamos ficar só em teorias, conheço várias pessoas que se dizem “ adeptas do caminho” mas quando chega nas “partes “ que nao lhe “agradam” “ pulam” . Isso não serve, como qualquer caminho ou nos comprometemos e praticamos com toda nossa essência ou melhor ir em busca de outro caminho que tenha mais a ver conosco. Mais ou menos aqui não funciona. D. Genaro dá o exemplo de um papagaio para o novo nagual, um papagaio tem que estar inteiro para que as forças do vento o levem a voar, nós também temos que estar inteiros para que as forças da existência nos impulsione no caminho, se temos furos ou drenos energéticos vamos ter dificuldades em avançar. A recapitulação é a prática para nos livrarmos dos drenos energéticos. É importante frisar que o caminho Tolteca não é o único caminho xamÂnico, por isso é interessante questionar bem sinceramente se estamos mesmo dispostos as tremendas exigências que o caminho tolteca propõe, do contrário melhor procurar outro caminho para evitar crises eternas e consequentes desequílibrios. O caminho Tolteca é herança dos clãs guerreiros que sobreviveram e por isso é um caminho muito exigente. Não me preocupo muito se as coisas aconteceram do jeito que o nagual descreve, me ocupo mais dos cernes abstratos das histórias, como ele mesmo orienta no livro “O poder do silêncio” . Os cernes abstratos por detrás das histórias é que importam, pois falam do Intento e de sua manifestação, de como limpar nosso elo com o Intento e recuperar nossa conexão perdida. Isto importa, as histórias são formas de transmitir esse conhecimento. É o “ter de acreditar”. Avaliei toda a história, considerei seriamente a possibilidade de tudo ali descrito não ser como aconteceu exatamente e por outro lado por que não? Então após pesar o sim e o não, meu “ter que acreditar” leva a sério a história, entro no jogo, assumo a responsabilidade . É um jogo cósmico, um maha lila, então to nessa, entro na brincadeira e apoio com meu intento que as coisas foram assim. Pois como diz o nagual, morrer e ser devorado pela águia é o destino de todos, logo nada mais besta, ir para ele não muda nada, mas tapear a águia e ir além, este é um desafio válido. Temos que morrer e entregar nossa consciência, mas o caminho tolteca nos ensina a mudar o matiz desse quadro e então, que desafios, que aventuras nos esperam. Nós, que nada somos, podermos encarar alegre e voluntariosamente a vastidão solitária da Eternidade É minha predileção viver assim, cada instante cheio dessa certeza.
MENSAGEM 1432
Assunto: Re: [ventania] Trecho do livro A Erva Do Diabo
Olá lista, Olá Felipe.
Mandou muitissimo bem enviando este texto. É uma das colocações mais lúcidas que conheço de orientação a quem busca o Conhecimento. D. Juan Matus coloca as coisas de uma forma muito clara e muito precisa neste diálogo com CC. Alguns comentários. Sobre o medo, forma de lidar com o medo, me lembro sempre da frase de meu instrutor de paraquedismo : “ não espere o medo prá passar prá pular, abrace seu medo e pule com ele” . Isso me serviu sempre em todas as situaçoes de vida, não esperar o medo passar, abraçar o medo e pular com ele. Se a gente deixar o medo paraliza e ficamos a vida toda no mesmo lugar sem conseguir realizar nada, apenas arrumando desculpa para nossa paralisia. Conheço muita gente que ficou paralisada pelo medo no caminho, inventam um monte de desculpas, inventam um monte de pretextos, mas basta observar com cuidado prá notar é o medo paralisando o avançar no Caminho do conhecimento. Existem muitos esconderijos para tais pessoas. Se escondem na desculpa da familia, dos filhos, do(A) outro (a), quando tal coisa acontecer seguirei em frente, enfim desculpas diversas, mas o fato permanece, foram paralizadas pelo medo. O medo tem várias máscaras. Vejo pessoas que não assumem o caminho, tem apenas uma ligação “mais ou menos” com o mesmo, se escondem numa capa de “ sou independente” mas no fundo não é independência que as rege, mas o medo. Tem medo de assumir plenamente as premissas do caminho, entretanto algo em seu interior insiste que o Caminho é real, assim ficam numa semi relação com o caminho, praticando o nível de conhecimento que mexe menos, pregando as teorias do Caminho, mas sem o comprometimento pleno e visceral que gera as verdadeiras mudanças. As proposições, os fatos que o caminho do (a) guerreiro(a) nos apresenta são tremendos. Somos nada, vamos morrer e nos dissolver, temos existências efêmeras onde na maior parte das vezes só representamos scripts prontos que nos entregam ao chegar, tudo isso é demais para algumas pessoas que voltam rapidamente para o caminho fácil das ilusões esquisotéricas que grassam por aí. Papai do céu, mamãe do céu, muitas vidas, dimensões “paradisíacas” , seres angelicais e bonzinhos cuidando de nós, a própria sensaçao de importÂncia pessoal, tudo isso são resultantes do tremendo medo que temos de enfrentar a realidade tal qual ela é, vasta, vazia, solitária, predadora. D. Juan Matus insiste : só como guerreiros (as) podemos enfrentar o caminho do conhecimento sem sermos destruídos por ele. A Clareza. Como é terrível este inimigo , pois faz a pessoa parar de crescer. Agora ela já sabe tudo, não precisa ouvir ninguém, suas teorias pessoais são verdades absolutas, está fechada para o crescimento e a transformação e que nefasto é isto num universo em constante crescimento e transformação. Com verdades prontas deixa de interagir com o mundo, se fecha nas suas próprias certezas sem perceber que suas convicções são uma armadilha, apenas um ponto de vista tomado como absoluto. Não adianta conversar com estas pessoas, elas sabem tudo, vão sempre te olhar com aquele jeito de “pobrezinho(a), quando chegar no meu nível vai entender” . Agem como certas religiões que se dizem ecumênicas, todos tem a verdade,mas a MINHA verdade é maior e “mais melhor” . Me lembro quando caí nessa bobagem, tava achando que era o rei da cocada preta, minhas verdades eram sempre mais absolutas. Eu tinha experiência, vivências , então tinha de estar certo. Tinha esquecido que eram “minhas experiências” , “minha singularidade” e que cada ser na realidade tem suas singulares vivências e suas verdades relativas a sua história de vida. Tinha perdido de vista o fato que a Eternidade é muito vasta, muito ampla e cada ser é único e singular e que a verdade de uma pessoa não é necessariamente a verdade geral, que esses dogmas de “verdade final” “única” são tolices que herdamos das religiões dominadoras e dogmáticas, onde impera : uma só verdade (a minha) , um só Deus e outras coisas “unicas mais”. Aí tava na casa de uma amiga e ela foi fazer uma colocação num tema que tavamos debatendo. Eu já ia comentando algo quando a pessoa que estava comigo, companheiro de TRABALHO há anos, me fuzilou com os olhos. Depois no caminho de volta prá casa ele fez um comentário : “ouça sempre as mulheres, elas tem um elo com o Tao profundo, tem sempre algo a dizer “ . Aquilo começou a abalar a bobeira que tava vivendo e então comecei a perceber que os toques, os sinais vinham das pessoas mais inexperadas . Perdi a bobeira da verdade absoluta , percebi que o mundo podia ser observado por muitos ângulos e cada ângulo tinha suas verdades. O poder é outra armadilha estupenda, a “síndrome de super homem” como diz um amigo meu, posso tudo, tenho tudo, nada me atinge. E nessa bobeira podemos perder um dos maiores trunfos do(a) guerreiro(a) : estar atento a tudo e todos. Podemos nos entregar a um estado de espírito que justamente nos deixa vulneráveis. É muito tola esta postura, me parece que um agudo senso de nosso elo com a morte nos cura dessa bobeira, quando sabemos de nossa efemeridade , que mesmo acessando o poder ainda somos nada frente a ETernidade, ainda podemos ser capturados e manipulados pelos entes que existem nas outras realidades e o mais sério, ainda somos caminhantes em direção a morte, que pode zerar tudo que conquistamos. Me lembro de uma frase de uma amiga : “Quando se sentir poderoso como um incendio se lembre do Sol. “ Nossos ancestrais deixaram esta lição, eram poderosíssimos e ainda assim caíram. Então chega o inimigo mais insidioso, a velhice. Creio que o termo melhor aqui é a senilidade, pois não é a idade que determina a velhice, mas a senilidade. Eu vejo este inimigo agindo quando temos consciencia das coisas, conhecimento do que deve ser, mas não temos energia ou vontade para transformar o conhecimento em atitudes. Isso prá mim é senilidade, é a incapacidade de transformar o conhecimento em atitude, daí que existem pessoas senis em todas as idades. A acomodação, a preguiça , a ausência de vontade estão nessa fase. Mas , como diz o nagual, se sacudimos o esqueleto, espantarmos a preguiça e realizarmos o saber tão almejado, então a vida terá outros sentido, teremos atingido a meta, por curto tempo que seja , mas teremos nos tornado pessoas dotadas de “conhecimento” . Alguns comentários pessoais para um texto que é perfeito em si, que vale a pena ser meditado muito por quem pretende trilhar o caminho do conhecimento, como estudamos um mapa antes de entrar numa região desconhecida.