Date:Seg Abr 30, 2001 9:11 am Texto:60 Assunto: Yobuënahuaboshka Mensagem:870
” Os anões da selva tinham surprendido Yobuënahuaboshka em uma emboscada e tinham cortado sua cabeça. Com tropeços , retornou a cabeça a região do Kashinahwa. Embora tivesse apreendido a saltar e a balançar com graça , ninguém queria uma cabeça sem corpo.
- Mãe , irmãos meus, vizinhos - se lamentava- Por que me rejeitam? Por que tem vergonha de mim? Para acabar com aquela ladainha e livrar-se da cabeça, a mãe lhe propôs transformar-se no que já existia. A cabeça pensou, sonhou, inventou. Seria o que não existia. A lua não existia. O arco íris não existia. Pediu sete novelos de lã , de todas as cores. Fez pontaria e lançou os novelos ao céu, um atrás do outro. Os novelos ficaram enganchados além das nuvens . Se desenrolaram os fios, suavemente , para a terra. Antes de subir, a cabeça advertiu:
- Quem não me reconheça será castigado. Quando me vejam lá em cima , digam : “Lá está o alto e belo Yobuënahuaboshka!” Então trançou os sete fios que estavam pendurados e subiu pela corda até o céu. Nessa noite , um talho branco apareceu pela primeira vez entre as estrelas. Uma moça ergueu os olhos e perguntou , maravilhada: “ - O que é isso? “ Imediatamente uma arara vermelha lançou-se sobre ela, deu uma súbita volta e picou-a entre as pernas, com seu rabo pontiagudo. A moça sangrou. Desde este momento , as mulheres sangram quando a lua quer. Na manhã seguinte , resplandeceu no céu, a corda de sete cores. Um homem apontou com o dedo:
- “Olhem, olhem! Olhem que estranho!” Disse isso e caiu. E essa foi a primeira vez que alguém morreu. obra citada- página 28 A criação no mundo do mito é dinâmica, nós recriamos o mundo a todo instante. A criação é um segundo momento, no princípio há a emanação,do nada brota algo, um pássaro que é a ETERNIDADE densifica’se e se auto fecunda, bota um ovo que é a existência. O mesmo é dito usando o dragão como símbolo. Depois dessa fase inicial vem então a criação que continua ocorrendo a cada instante . A física fala disso hoje, não há passado nem presente, mas um presente dinâmico que emite ondas quânticas que ecoam e interagem com este presente, intermpretamos algumas dessas irradiações como passado, outras como futuro e tanto quanto o ramo da árvore é causa do caule tanto quanto a raíz, nem passado , nem futuro são menos irreais ou causais, paradoxalmente. Ler o mito, ouvir o mito é sagrado porque ao faze-lo partilhamos do poder nele incluso e se somos buscadores (as) naturais do poder sem dúvida o poder ouve e atua quando nos unimos com Ele, pela força do mito. Por isso alguns mitos são secretos, outros só devem ser partilhados em lugares de poder. O rito reatualiza o mito. No rito pleno incorporamos o mito, não como um ente externo que a nós se agrega ou possuí, mas entramos na mesma ressonância, na mesma frequência onde não representamos apenas, mas somos o mito. O rito nos leva a nós mesmos, o que incorporamos num rito é a realidade mais profunda de nós mesmos, ausentes pela condição de não poder que é a vida cotidiana. Um desafio que sinto que pode ser chamado de “Viver o mito” com o despreendimento e a flexibilidade perceptiva que o caminho do xamanismo propõe é a partir de hoje cada vez que olharmos a corda de sete cores ou a lua lembrarmos de dizer, mesmo que seja só para nós mesmos:
- ” Lá está o alto e belo Yobuënahuaboshka!” É com tais detalhes que se tece um sonho de mil gatos(as)…